Nova dinâmica das doenças da soja leva produtores a rever estratégias de manejo
O que mudou não foi apenas a doença
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Debates do Trend Group Fungicidas 2026 mostram como clima, economia e a evolução das principais doenças estão transformando a forma de planejar o manejo da próxima safra, com decisões cada vez mais adaptadas à realidade de cada região produtora
A forma como os produtores brasileiros planejam o manejo de doenças na soja está passando por uma transformação. Doenças que até poucos anos atrás recebiam menor atenção em parte dos programas de manejo, como cercospora e mancha-parda, passam a dividir a atenção dos produtores com doenças historicamente prioritárias, como a ferrugem asiática, exigindo uma abordagem mais abrangente, capaz de considerar as particularidades de cada sistema produtivo desde o início do ciclo. Esse foi um dos principais pontos debatidos na última semana durante o Trend Group Fungicidas 2026, promovido pela ADAMA, que reuniu pesquisadores, consultores e profissionais que são referência no setor agrícola para discutir os principais desafios fitossanitários da próxima safra.
Ao longo dos três dias de programação, os participantes discutiram como fatores agronômicos, climáticos e econômicos vêm ampliando a complexidade do manejo fitossanitário. Neste cenário, o pesquisador Marcelo Madalosso, da Madalosso Pesquisa; os consultores Luis Carregal, da AgroCarregal, Nédio Tormen, da Verde Agro, e Jefferson Brambila, da J&A Inteligência Agronômica; além do economista José Eustáquio Filho, da Taco Agro; compartilharam análises sobre a evolução das principais doenças da soja e do algodão, eficiência no manejo fitossanitário, macroeconomia e geopolítica, mostrando como decisões tomadas dentro e fora da porteira passaram a influenciar, de forma cada vez mais direta, o planejamento da lavoura.
Marcelo Gimenes, gerente de Fungicidas da ADAMA, destaca que o planejamento passou a ser tão importante quanto a própria intervenção no campo. "O manejo deixa de ser uma resposta ao aumento da pressão de doenças e passa a ser construído desde o início da safra. Hoje, o produtor precisa considerar quais doenças predominam em cada região, como elas evoluem ao longo do ciclo e quais fatores podem comprometer a eficiência do controle”.
O que mudou não foi apenas a doença
Entre os principais consensos do encontro esteve a percepção de que o desafio deixou de ser apenas identificar quais doenças predominam em cada região. A evolução do perfil fitossanitário, as diferenças entre os ambientes de produção e as limitações operacionais enfrentadas ao longo da safra passaram a exigir uma condução capaz de responder a realidades bastante distintas entre si.
No Sul do País, a expectativa é de uma safra mais desafiadora para doenças foliares, com maior atenção para cercospora, mancha-parda e ferrugem asiática. Em um ambiente com maior umidade e temperaturas elevadas, essas doenças tendem a ganhar importância não apenas pelos danos diretos à cultura, mas também pela capacidade de comprometer a área fotossintética da planta e antecipar a desfolha. Ao mesmo tempo, a possibilidade de redução das janelas de aplicação pode dificultar a entrada das máquinas na lavoura, reforçando a necessidade de decisões tomadas desde o início do ciclo.
Já no Cerrado, o cenário mantém elevada pressão para doenças como mancha-alvo, cercospora, mancha-parda e septoriose. Em sistemas de produção intensivos, marcados também por temperaturas elevadas e chuvas frequentes, as discussões reforçaram a necessidade de programas capazes de proteger o potencial produtivo durante todo o desenvolvimento da cultura, combinando diferentes mecanismos de ação e tecnologias que favoreçam maior estabilidade do controle nas condições encontradas em campo.
A mesma lógica também se aplica ao algodão. Entre os temas debatidos, a ramulária foi apontada como um dos principais desafios da cultura, exigindo monitoramento constante e programas de manejo capazes de acompanhar a evolução da doença ao longo do ciclo, especialmente em ambientes de alta intensidade produtiva.
A economia também entrou na conta do manejo
Se as diferenças entre as regiões produtoras tornaram o planejamento mais complexo, os debates também mostraram que as decisões relacionadas à proteção das lavouras passaram a incorporar fatores que extrapolam os desafios agronômicos. Oscilações cambiais, disponibilidade de insumos, volatilidade dos preços das commodities e custos de produção passaram a influenciar diretamente o planejamento da safra, levando o produtor a buscar soluções capazes de reduzir riscos e preservar o potencial produtivo.
Somado a esse contexto, também ganhou força a discussão sobre como diferentes tecnologias passaram a contribuir para um mesmo objetivo: aumentar a consistência das estratégias adotadas em campo diante de uma realidade cada vez mais dinâmica. Ao longo do encontro, os debates mostraram que mecanismos de ação, desempenho das formulações, condições operacionais e características de cada ambiente produtivo precisam ser avaliados de forma integrada para ampliar a estabilidade do controle fitossanitário, especialmente em safras marcadas por maior pressão de doenças e menor previsibilidade das operações de campo.
"Durante muitos anos, o desafio era responder bem às doenças predominantes em cada safra. Hoje, o desafio é construir um programa de manejo capaz de acompanhar um cenário que muda o tempo todo. Esse passa a ser um dos principais diferenciais para proteger o potencial produtivo da lavoura", avalia Marcelo Gimenes, gerente de Fungicidas da ADAMA.